sábado, janeiro 31, 2004


© André Gomes

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em enxame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

Daniel Faria
Sons de hoje

Mogwai - Young Team
Xela - For Frosty Mornings And Summer Nights
Telefon Tel Aviv - Map of What Is Effortless
Explosions In The Sky - How Strange, Innocence
Aurore Rien - Telesthia EP
The Vicious Five - The Electric Chants of the Disenchanted EP
Gang of Four - Shrinkwrapped
Mark Mulcahy - Fathering
Dakota Suite - Songs for a Barbed Wire Fence
Red House Painters - Down Colorful Hill

sexta-feira, janeiro 30, 2004



Michael Nyman, o compositor da banda sonora do célebre filme de Jane Campion, O Piano, de 1993, vai apresentar-se em Portugal para dois concertos. No dia 14 de abril, actua no Coliseu do Porto, e no dia seguinte, 15 de Abril, actua no Coliseu de Lisboa.


De acordo com uma noticia da SIC, Peter Gabriel vai também fazer parte do Rock in Rio a decorrer este ano em Lisboa. O ex-Genesis será o cabeça do cartaz no primeiro dia do festival que vai decorrer nos dias 29 e 30 de Maio e 4, 5 e 6 de Junho.


De acordo com o Y, do jornal Público, os islandeses Múm vão estar em Portugal para dois concertos, na Aula Magna em Lisboa no dia 5 de Maio, e no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, no dia seguinte, 6 de Maio. Estes concertos inserem na digressão de apresentação do album "Summer Make Good", que será editado brevemente.

© André Gomes

Nebulosas

De dia uma flor evaporada
é no céu de noite uma vela acesa.
Alguém se recosta nos espaldares da terra.
Evaporam-se pedras, abrem-se portas.
Tudo tem um hálito que sobe.
À noite abrimos o peito e saem dele
como de gaveta
finíssimas borboletas. cavalos brancos.
A carne apodrecida pela saudade
leveda auroras.
Devemos ter dentro de nós o altíssimo lugar
das nebulosas.
À noite surpreendidos pela morte
abrimos a boca
e deixamos escapar uma labareda.
Estendem-se na treva as flores evaporadas
manchas estelares que são no céu
a nossa memória.
O corpo coze no espaço interior
das suas paredes metais de terra.
Os ácidos desfazem as pedras.
Saem depois pela boca os astros
as asas aladas das labaredas.
O céu fica então povoado de charcos.
Mais tarde os astros ganham uma malha.
Os lenços brancos da morte quando sobem
cristalizam numa rede fibrosa de corpos
que chamamos nebulosas. Só-pros.
Saem-me pelo nariz fumos misteriosos.
Os astros são a seca memória celeste
da nossa decomposição húmida e terrestre.
A saudade quando se evola
torna-se plasma celular, matéria fibrosa.
A saudade enxuga depois de dissolver em fumo
a humidade putrefacta dos corpos.

António Cândido Franco
Sons de um dia Legislativo

Explosions In The Sky - How Strange, Innocence
The Vicious Five - The Electric Chants of the Disenchanted EP
Bedhead - Beheaded
dEUS - The Ideal Crash
Earlimart - Everyone Down Here
cLOUDDEAD - Ten
Red House Painters - Down Colorful Hill
The Astonishing Urbana Fall - Iconolator
Interpol - Turn on the Bright Lights
Air - Talkie Walkie
The American Analog Set - The Golden Band

quinta-feira, janeiro 29, 2004

Sons de hoje

Ryan Adams - Gold
Morphine - Yes
Red House Painters - Down Colorful Hill
Neil Young - Unplugged
Ornatos Violeta - O Monstro Precisa de Amigos
Mice Parade - Obrigado Saudade
Colleen - Everyone Alive Wants Answers
The Sunburned Hand Of The Man - Headdress
Damien Rice - O
Bonnie 'Prince' Billy - I see a Darkness
Sigur Rós - ()


Afinal, além da actuação na Galeria Zé dos Bois, no dia 25 de Março, os japoneses Mono, vão também actuar no bar "O meu Mercedes é maior que o teu", no Porto, no dia seguinte, 26 de Março.

quarta-feira, janeiro 28, 2004

Sons de hoje

Jane's Addiction - Strays
The Clientele - Violet Hour
Spring Heel Jack - Versions
Blur - 13
Rufus Wainwright - Want One
Explosions In The Sky - The Earth Is Not A Cold Dead Place
Do Make Say Think - Winter Hymn Country Hymn Secret Hymn
Trans Am - Liberation
Lisa Germano - Lullaby For Liquid Pig
Nick Cave & The Bad Seeds - The Boatman's Call
Rosie Thomas - Only With Laughter Can You Win

© André Gomes

O nome parece a infância

O nome parece a infância.
Quando na velhice é termos vindo
Sem pressa

Para dentro
Do nome se esvazia o corpo quando o corpo cai
É um fruto.

O nome é ainda
O modo como chamas.

O nome é a arma contra mim. O maior perigo.
Com os teus lábios podes destruir-me.

Daniel Faria

terça-feira, janeiro 27, 2004



"Happiness", de Lisa Germano, editado há já 11 anos, em 2003, é um disco que, mais do que outra coisa, faz justiça ao nome. O segundo album da artista que passou grande parte dos anos 80 e 90 a actuar com John Mellencamp, é um daqueles discos para se ouvir de janela aberta, de preferência num dia de sol, por entre roupas coloridas, mãos dadas e sorrisos largos. É um disco proíbido para aqueles que não estão de bem consigo próprios. Logo na primeira faixa, viva e leve, Lisa Germano com um tom quase infantil e despreocupado (como se desconhecesse o poder da sua voz e a influência das suas sábias palavras) diz: " ... you would give anything to change back to when the waves were smaller and you could jump over, change back to when you laughed, easy, and all your moves were childlike". Só para dias de sol ou em dias em que excepcionalmente, uma luz se acenda (só) para tornar este disco legitimo.


Segundo o site da Kork, os japoneses Mono vão estar em Portugal, na Galeria Zé dos Bois em Lisboa, para um concerto no dia 25 de Março. Os mono editaram em 2003 o seu mais recente album, "One Step More and You Die" (na imagem), pela editora "Arena Rock Recording".
Sons de hoje

Grand Drive - Road Music
Hüsker Dü - Candy Apple Grey
The Delgados - Domestiques
Spring Heel Jack - Versions
Party Of One - Caught The Blast
The American Analog Set - The Golden Band
Lisa Germano - Happiness
dEUS - Worst Case Scenario
Toranja - Esquissos
Bark Psychosis - Codename: Dustsucker
Red House Painters - Down Colorful Hill

© André Gomes

Desfigura-se aos poucos o tempo. O tempo da dor, do último segundo, do último suspiro. Lá fora, no silêncio, as ruas estão vazias mas repletas de pessoas mais vazias que as próprias ruas. O silêncio, esse, perdura no grito da loucura, que insiste em mostrar, em cada gesto perdido, em cada palavra arrumada, em cada canto escuro, a infinidade da solidão, o vácuo mofino. Pois nesse lugar ermo que somos, a luz é demasiado cobarde para fazer brilhar nos nossos corações a incomensurável leveza da ternura.

segunda-feira, janeiro 26, 2004



De acordo com este site, as gravações do novo album dos Sigur Rós estão a correr da melhor maneira. Ao contrário de "()", o 4º album de originais da banda Islandesa terá nome das faixas e mesmo letras. O processo de criação é bastante diferente do utilizado no último album, visto terem entrado em estúdio sem canções pré-definidas (ao contrário do que aconteceu no album anterior). Prevê-se que o novo disco, ainda sem título, esteja concluído no próximo Outono.
Sons de hoje

Telefon Tel Aviv - Map of What Is Effortless
Explosions In The Sky - The Earth Is Not A Cold Dead Place
Aurore Rien - Sedative for the Celestial Blue
Do Make Say Think - & Yet & Yet
Interpol - Turn on the Bright Lights

domingo, janeiro 25, 2004



Em alturas como esta, nenhuma música, nenhum poema, nenhuma foto, nenhum filme faz sentido. Nada faz sentido. Tudo perde o significado. Em momentos como este, é impossível pensar em problemas mesquinhos, coisas insignificantes, coisas de uma pequenez tão grande que são uma afronta ao que se passou hoje num estádio de futebol, em Guimarães. Miklós Fehér, jogador do Benfica, de 24 anos, morre. Assim ... sem explicação. Descansa em paz, Fehér.

© André Gomes

Bonnie 'Prince' Billy - Raining in darling

Darling
I can stay awake all night
But I would make mistakes alright
And the body asks so much

Sweet thing
I give you what I reach
Taken what I had to teach
And re-rendered it with such
With such
With such

Oh it don't rain anymore
I go outdoors
Where it's fun to be
And I know you love me
I know you do
Alla Polacca. Maus Hábitos. Porto. 25 de Janeiro de 2004



Depois do concerto no bar Registus, em Matosinhos, desloquei-me ontem ao Maus Hábitos, no Porto, para assistir ao concerto dos Alla Polacca. A sala, tirando o fumo e o calor, é bastante boa para este tipo de concertos. Num fundo preto, junto ao "palco", duas janelas brancas que permitiam ver a cidade do Porto apenas iluminada pela Torre dos Clérigos. Obviamente, o concerto não começou à hora marcada, mas isso não é um grande problema quando é num sitio como o Maus Hábitos: há sempre alguma coisa para se fazer.
Os Alla Polacca são 5 pessoas. Duas na guitarra, um baixo, uma bateria e o teclista/pianista. Tinham prometido apresentar algumas faixas do primeiro album de originais "We have made thousands of lonely people happy: Why not you?" e assim aconteceu. Apresentaram bastantes canções que, segundo aquilo que me disseram, fazem parte das compilações lançadas anteriormente. Sendo assim, do 1º album tocaram "Astray", uma canção pop bonita, "arranjadinha" com um riff de guitarra melodioso e facilmente identificável, "Silence Decoder", a canção mais rock do disco, que depois deu lugar, sem pausas pelo meio, a "Further Far" um tema com uma forte linha de baixo, com um som rude e agressivo, "Morning VS Jupiter" (que é para mim a melhor faixa do album) que é uma faixa Mogwai-style, longa e com um crescendo bem construído para finalizar a canção e, para acabar o concerto, "Wrong Like Us" ou a canção rock-do-Kazoo.
Pareceram bem mais seguros e consistentes do que no concerto no Registus. Admitiram até, no final do concerto, que tinha sido a mais longa actuação das suas carreiras. O concerto demorou cerca de uma hora e teve alguns bons momentos. E só por isso, valeu a pena pagar 3€.
Sons de hoje

Kings of Convenience - Quiet Is the New Loud
Mahogany - The Dream Of A Modern Day
Godspeed You Black Emperor! - Slow Riot For A New Zero Kanada EP
Bola - Fyuti
Fontanelle - F EP
Metamatics - From Death to Passwords Where You´re a Paper Aeroplane
Ulrich Schnauss - Far Away Trains Passing By
Flim - Given You Nothing
Bonnie 'Prince' Billy - I See a Darkness
Damien Rice - O
Sigur Rós - ()
A Silver Mt. Zion - He Has Left Us Alone But Shafts of Light Sometimes Grace the Corners of Our Rooms

© André Gomes

Outro dia

Cai na manhão do coração desolado
a toutinegra que longe daqui cantava e
nesse instante
a tristeza do rosto subiu aos lábios
para queimar a morte próxima do corpo e
da terra

mas se a noite vier
cheia de luzes ilegíveis de véus
de relógios parados - ergue as asas
fere o ar que te sufoca e não te mexas
para que eu fique a ver-te estilhaçar
aquilo que penso e já não escrevo - aquilo
que perdeu o nome e se bebe como cicuta
junto ao precipício e à beleza do teu corpo

depois
deixarei o dia avançar com o barco
que levanta voo e traz as más noticias dos jornais
e o cheiro espesso das coisas esquecidas - os óculos
para ver o mar que já não vejo e um dedo incendiado
esboçando na poeira uma janela de ouro
e de vento

Al Berto

sábado, janeiro 24, 2004

Quando pensavam que as listas de discos de 2003 tinha chegado ao fim, eis que surge a última, a derradeira. A verdadeira lista. Para consultar o resto do top (os 100 primeiros lugares) clicar aqui.

TOP FÓRUM SONS 2003

10

Rufus Wainwright
Want One

9

The White Stripes
Elephant [V2]

8

Yeah Yeah Yeah's
Fever To Tell [Interscope]

7

Cat Power
You Are Free [Matador]

6

Belle & Sebastian
Dear Catastrophe Waitress [Rough]

5

Outkast
Speakerboxxx/The Love Below [Arista]

4

Mogwai
Happy Songs For Happy People [Matador]

3

Josh Rouse
1972 [Ryko]

2

Blur
Think Tank

1

Radiohead
Hail To The Thief
Top Português 2003 - Fórum Sons

57 ANA MOURA Guarda-me a Vida na Mão
56 AQUARELLE Ten Postcards To Her Ghosts
55 GHOAK Some Are Weird
54 PRIMITIVE REASON The Firescroll
53 NBC "Afro Disíaco"
52 CANTO NONO O Porto a Oito Vozes
51 ACE "IntensaMente"
50 L'EGO One Leg
49 D-MARS Filho da Selva
48 RITA CARDOSO Acatisia
47 TORANJA Esquissos
46 TWOKINDERMEN Misstakeson Love
45 STOWAWAYS ... Why Not You?
44 LOOPLESS
43 JOSÉ CID Nasci Para a Música
42 SONS DE CÁ
41 Movimentos Perpétuos: tributo a Carlos Paredes
40 L'EGO Sleep
39 PEDRO CALEDIRA CABRAL
38 AZEMBLA'S QUARTET Esquece Tudo O que Te Disse
37 IN HER SPACE No Body Needed
36 SPACEBOYS Sonic Fiction
35 TWENTY INCH BURIAL - "The Void We Carry"
34 JACINTA Tribute to Bessie Smith
33 "@" C Hard Disk
32 MESA mesa
31 MÃO MORTA Carícias Malícias
30 ALLA POLACCA ...Why Not You?
29 JANITA SALOMÉ Tão Pouco e Tanto
28 MLER IF DADA Pequena Fábula
27 ALLA POLACCA & STOWAWAYS Why Not You?
26 VÍTOR JOAQUIM- La Strada Is On Fire (And We Are All Naked)
25 BALLA le jeu
24 MELO D "Outro Universo"
23 FIDBEK "Erro Musical"
22 RONDA DOS QUATRO CAMINHOS terra de abrigo
21 FAUSTO A Ópera Mágica do Cantor Maldito
20 KAFKA
19 CAMANÉ Como Sempre, Como Dantes
18 RICARDO ROCHA Voluptuária
17 AT-TAMBUR at-tambur
16 FAT FREDDY fanfarras do ópio
15 L'EGO Ugly Pop
14 DAVID FONSECA Sing Me Something New
13 RÁDIO MACAU Acordar
12 DEALEMA Dealema
11 ALLA POLACCA Not The White P?
10 BLIND ZERO A Way To Bleed Your Love
9 PEDRO TUDELA Là Où Je Dors
8 CRISTINA BRANCO sensus
7 FUSE "Sintoniza..."
6 MAFALDA ARNAUTH "Encantamento"
5 THE LEGENDARY TIGER MAN "Fuck Christmas, I Got The Blues"
4 MECHANOSPHERE Mechanosphere
3 SÉRGIO GODINHO "O Irmão Do Meio"
2 OLD JERUSALEM "April"


1 STEALING ORCHESTRA "The Incredible Shrinking Band"
Isto não é um equivoco! Obrigado.


Weston

O que é o espaço?

O que é o espaço
senão o intervalo
por ondeo pensamento desliza
imaginando imagens?

O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta.

Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível.

Ana Hatherly
Sons de hoje

Zero 7 - When It Falls
Telefon Tel Aviv - Map of What Is Effortless
Plaid - Spokes
Spacek - Vintage Hi-Tech
Red House Painters - Down Colorful Hill
Sonic Youth - Goo
Sigur Rós - ()
Soda Kaustica / Payback Time / All Against The World. Bar Zum Zum. Porto. 23 de Janeiro de 2004



O concerto de ontem, no bar Zum Zum, em Cedofeita, abria aquilo que tão apaixonadamente chamam de “a Cena Hardcore do Porto”. Numa parte mais underground, como mandam as regras, situava-se uma espécie de cave / garagem improvisada para o efeito. Em redor da sala posters dos mais variados ícones punk: desde os Santos & Pecadores até aos Linkin Park passando pelos HIM, Rádio Macau e Rui Veloso e mesmo - pasme-se - um poster dessa conhecidíssima compilação punk que é a “Now 9”. Havia ainda posters de dois filmes que praticamente fizeram a revisão da história do Punk: Demolidor e X-Men 2, essas duas biblias punk. Vestidos realmente a preceito - crista, cráchas, cintos de couro, pulseiras e colares de picos, e o resto da indumentária punk - quase só se viu um casal punk que alegremente esperava pelo inicio dos concertos, entre berros e demais manifestações efusivas. A “alegre punk” - como gosto de chamar - sorria, berrava e levantava a camisola para mostrar os seios. Isto depois de perguntar várias vezes “Alguém quer ver as minhas maminhas?”, atente-se.
A primeira banda a actuar seriam os Soda Kaústica que apresentavam, como diz o cartaz, punk old-school puro e duro. Punk clássico. Por momentos, retirei 30 anos a 2004, a cor e imaginei-me num concerto punk em 1977. Ou pelo menos tentei. Refrões incendiários, riffs simples mas catchy. As letras falam daquilo que é esperado: exclusão social, adolescência difícil. Poderia dizer que o espirito de Sid Vicious esteve presente ou até mesmo que os Soda Kaustica vão beber à mesma fonte que os Sex Pistols, X-Ray Spex, Buzzcocks, Stiff Little Fingers e os The Clash fizeram, mas não o vou fazer. É Punk, logo não precisa de grandes explicações nem incursões metafórias. O ambiente era excelente, o ideal. O público aproximava-se do microfone, ora para mandar berros sem explicação aparente - sim, adivinharam, a “alegre punk” outra vez -, ora para acompanhar o selvagem vocalista na reprodução das letras. Acabaram com duas covers de clássicos que eu desconhecia por completo e acabaram com a primeira festa.
A segunda banda vinha de propósito de Lisboa para actuar no Zum Zum. Chamavam-se Payback Time e traziam Harcore em raiva, em fúria. Para fechar a noite actuaram os All Against the World que, e como diz o cartaz de novo, apresentam aquilo que apelidam de “Melodic old-school Hardcore” e provocaram as mais sérias e desafiantes sequências de crowd-surfing, mosh e dança tresloucada. E foi aqui que deixei de ver a “alegre punk”. Muito suor, entrega, revolta em palco. Canções que faziam espelhar reacções estranhas na plateia. Desordem, tumulto, uma briga provocada pela ira, raiva incontrolável, sem vergonha, pejo. Confusão, revolta, pré-motim. E depois aquela sensação de estarmos todos naquilo, de todos estarmos ali para um só propósito, uma só intenção. A intenção mais do que benéfica de anular a dor, a diferença, o preconceito. Passada meia hora, o ensinamento tinha acabado e era altura de todos regressarmos a casa, conscientes que o dever tinha sido cumprido. Tinha-se feito, não rock, mas punk. E a minha adolescência devia ter passado mais por aqui.

sexta-feira, janeiro 23, 2004

Sons de hoje

Joy Division - Closer
The Smiths - Strangeways, Here We Come
Bedhead - What Fun Life Was
The Walkmen - Bows & Arrows
Explosions In The Sky - The Earth Is Not A Cold Dead Place
Franz Ferdinand - Franz Ferdinand
Red House Painters - Red House Painters II


"A baixista e vocalista dos Sonic Youth, Kim Gordon (n.1953), vai realizar, em Abril, no auditório de Serralves, um concerto integrado no ciclo de dança e música "As Meninas", que tem vindo a decorrer, desde Outubro do ano passado, na instituição portuense. "

in Público

© André Gomes

Teatro

Na selva dos meus órgãos, sobre a qual foi desde sempre a pele o
firmamento, ao coração coube o papel de rei da criação. Ignoro de que
peça é todo este meu corpo a encenação perversa, onde se vê o sangue
rebentar contra os rochedos. Do inferno,aonde às vezes o sol vai buscar
as chamas, sobre ele impediosamente jorram os projectores.

Luís Miguel Nava

quinta-feira, janeiro 22, 2004



Lost in Translation - O Amor é um Lugar Estranho de Sofia Coppola

Bob (Bill Murray) é um famoso actor de filmes de acção e encontra-se em Tóquio para a gravação de um anúncio a uma marca de Whisky que lhe iria render a soma de 2 milhões de dólares. O seu casamento tem grandes problemas, pois a sua mulher já não sente a sua falta por casa. Só a relação com os seus dois filhos lhe dá a impressão que ainda tem uma familia.
Charlotte (Scarlett Johansson), é casada com um fotógrafo que se encontra a trabalhar com uma banda de rock n' roll e que tem pouco tempo para dar a atenção que ela precisa. Acabou há poucos meses o curso de filosofia e não sabe ainda muito bem o que fazer da sua vida. Passa a vida a vaguear pelo Hotel, a visitar a cidade de Tóquio, templos e mesmo a fazer arranjos florais e a decorar o quarto. Sente-se só, embora tenha alguns amigos na cidade e sente acima de tudo que o seu casamento sofre de falta de consistência, de falta de tempo.
Um dia, por acaso, Bob e Charlotte conhecem-se no bar do Hotel e começam, a partir daí a desenvolver uma relação peculiar. Boa teria de ficar no Hotel mais uns dias pois foi convidado para estar presente num famoso programa televisivo e Charlotte vê-se mais uma vez sozinha pois o marido saíu em trabalho durante uns dias e só regressaria um tempo depois. Bob e Charlotte começam a sair em conjunto, a falar dos interesses que tinham em comum, e acima de tudo a fazer desaparecer a solidão e angústia que ambos partilham. Ao fim de alguns dias começam mesmo a desejar ficar durante mais algum tempo numa cidade onde estavam fartos de estar.
Lost in Translation - O Amor é um Lugar Estranho, demonstra como o amor não tem necessáriamente de ter forma física, de ser manifestado, comprovado. Mostra como se pode amar sem presença, sem se dizer, sem se notar. A perda primeira é a que existe em relação à vida de ambos. A perda de direcção, a perda de um sentido, uma orientação. Ambos se encontram insatisfeitos emocionalmente. Só depois vem a dificuldade de entendimento da lingua japonesa. A sensação de solidão e a união entre os dois é ainda marcada mais intensamente pelo facto de estarem num país que lhes é completamente desconhecido, em contacto com uma linguagem que não conhecem. Isto e o facto de o casamento de ambos resultar em dúvidas e mais dúvidas sobre os seus caminhos as suas existências, faz com que esqueçam por momentos o facto de ambos serem casados e darem azo ao amor livre, ao carinho gratuito e despido de demais preconceitos.


De acordo com a mail list da morr music, Sole, o criador da Anticon, vai apresentar-se na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, para um concerto no dia 24 de Fevereiro.
Sons de hoje

Malcolm Middleton - 5:14 Fluoxytine Seagull Alcohol John Nicotine
Santa Maria, Gasolina em teu Ventre! - Free-Terminator
Joni Mitchell - Blue
Neil Young - Silver & Gold
Wordsong - Al Berto
Tindersticks - Curtains
Múm - Summer Make Good
Mogwai - Rock Action
Red House Painters - Red House Painters II
Tom Waits - Closing Time

© André Gomes

Vejo que o nosso passado esfumou-se, transformou-se em finas linhas de fumo que morrem tacitamente depois de chocarem umas com as outras. Linhas tão frágeis que se desfazem com o simples sopro da inépcia, do teimoso desacordo. E ambos sabemos quão difícil é impedir que essas finas linhas levem daqui a réstia de esperança que nos mantia unidos, contíguos. E essa névoa espessa que vês rente ao chão que pisas é apenas o sinal indubitável que a cor que outrora encheu as nossas mãos, deu lugar ao mais cerrado cinzento.

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Sons de hoje

Mind da Gap - Suspeitos do Costume
Deftones - White Pony
Malcolm Middleton - 5:14 Fluoxytine Seagull Alcohol John Nicotine
Air - Talkie Walkie
System of a Down - System of a Down
Xiu Xiu - A Promise
Damien Rice - O
Mark Kozelek - What's Next To The Moon
Explosions In The Sky - The Earth Is Not A Cold Dead Place
Dntel - Life Is Full of Possibilities
Joy Division - Closer

© André Gomes

O que fica depois dos violinos

Quando te esqueceres do meu nome,
e o meu corpo for apenas uma sombra
esbatida nas húmidas paredes daquele quarto.
Quando já não te chegar o eco da minha voz,
ou o entoar das minhas palavras,
peço-te então que recordes: houve uma tarde,
umas horas, fomos felizes juntos e foi estrondoso viver.
Era domingo em Hampsead, com a frágil primavera de abril
a espontar nos rebentos dos castanheiros.
Em direcção à igreja apressavam-se monjas irlandesas,
rapazes, endomingados e entorpecidos, pela mão.
Em cima, por detrás da sebe, na verde penumbra do parque,
dois homens beijavam-se, lentamente.
Chegaste tu, sem que me desse conta apareceste e começámos
a falar,
tropeçando de riso entre as palavras, gaguejadas
no estranho idioma que nem a ti nem a mim pertencia.
Depois fizeste-te pequena nos meus braços
e a relva acolheu a tua escura cabeleira.
E sem demora a cinzenta escadaria, comprida e estreita,
a alfombra de cinza e gordura,
os teus pequenos e desolados seios na minha boca.
Sim, às vezes é simples e aprazível viver,
quero que te lembres, que não te esqueças
do passar daquelas horas, do seu esperançado fulgor
Também eu, longe de ti, quando perdida na memória
estiver a sede do teu sorriso, lembrarei, como agora,
enquanto escrevo estas palavras para todos aqueles
que num momento, sem promessas nem dádivas, puramente
se entregam;
e no desconhecimento de raças ou razões se fundem
num corpo único, mais ditoso,
para logo, aquietado já o instinto,
se separarem, cumprindo o seu destino,
sabendo que, talvez só por isso,
não foi a sua existência vã.

Juan Luis Panero
Mirah. O Meu Mercedes é Maior do Que o Teu. Porto. 20 de Janeiro de 2004



Ao contrário do que aconteceu em Leiria, a logistica permitiu que o video sobre a banda feminista brasileira "Dominatrix", realizado por Emily, que pertence, também ela, a uma banda punk norte-americana, pudesse ser visionado pelos presentes num Mercedes a meio gás. Mal o video acabou, Mirah Yom Tov Zeitlyn ou apenas Mirah, como é comummente conhecida, subiu ao palco acompanhada de uma guitarra para aquilo que seria um espectaculo de cerca de uma hora e uma passagem pelos 3 albuns de originais da singer/songwriter e ainda algumas faixas inéditas que me agradaram particularmente. À segunda canção, o hino-orquestrado-grandioso que é Cold Cold Water. Na falta dos meios que normalmente fazem parte da música, Mirah conseguiu apresentar a canção com (quase) a mesma intensidade com que o faz no disco. Arrepiante e profundamente emotiva. A certa altura, Mirah contou com a ajuda de Emily que umas vezes acertada, outras vezes despropositada e inconveniente, tomou conta da secção ritmica das canções que Mirah ia construindo, com a guitarra que segurava com ambas mãos, iluminadas pelos focos amarelos e vermelhos que incidiam sobre si, e com a sua voz despida e doce. De "Advisory Committee", foram apresentadas a enternecedora "Make it Hot", a inconstante e quase caótica "Mt. St. Helens", a curta mas incisiva "Recommendation", a taciturna e quase mórbida "Special Death". Do primeiro album de originais, "You Think It's Like This But Really It's Like This" que data de 2000, e que desconheço por completo, uma música que me surpreendeu e me agradou. "Person Person" é, ao lado de Cold Cold Water, candidata a canção/momento do concerto. No fim, Mirah pediu que criassemos, nós mesmos, a secção ritmica, com a ajuda do bater do pé no chã e de palmas, para que cantasse Acapella a divertida "The Garden". Mirah confessou não estar muito faladora. Mas confessou tudo de outra maneira. Da maneira que lhe é exigida: no contar de histórias e ao obrigar-nos a rever nessas mesmas histórias. E só mesmo a noite reconfortante que se viveu no Mercedes para fazer esquecer o frio que se fazia sentir lá fora.

terça-feira, janeiro 20, 2004



De acordo com a newsletter da Durtro, a editora de David Tibet, os Current 93 vão estar em Portugal, mais concretamente em Lisboa, para dois concertos, no final do mês de Abril.
Sons de Hoje

The Smiths - Meat is Murder
The Afghan Whigs - 1965
Hella - The Devil Isn't Red
Isobel Campbell - Amorino
Aurore Rien - Sedative for the Celestial Blue
Malcolm Middleton - 5:14 Fluoxytine Seagull Alcohol John Nicotine
Mão Morta - Primavera De Destroços
Tv On The Radio - Young Liars EP
Xiu Xiu - Chapel Of The Chimes EP
Led Zeppelin - Physical Graffiti
Ryan Adams - Love Is Hell, Pt. 1 EP
Mogwai - Rock Action

segunda-feira, janeiro 19, 2004



De acordo com a noticia do Cotonete os Zero 7 vão actuar em Portugal nos dias 4 e 5 de Abril. Os dois concertos estão incluidos numa digressão de promoção ao novo disco "When It Falls" que sucede ao disco de estreia, "Simples Things", editado em 2001.
Sons de hoje

Stereolab - Margerine Eclipse
Malcolm Middleton - 5:14 Fluoxytine Seagull Alcohol John Nicotine
Mogwai - Young Team
Bowery Electric - Lushlife
The Divine Comedy - Absent Friends
Nervous Cop - Nervous Cop
Mice Parade - Obrigado Saudade
Mark Kozelek - Rock 'N' Roll Singer EP
Ryan Adams - Love is Hell, Pt. 2 EP
Mogwai - Rock Action
Piano Magic - Low Birth Weight

domingo, janeiro 18, 2004


© André Gomes

A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos
To Rococo Rot. Indústria. Porto. 17 de Janeiro de 2004



Depois de um original concerto no Metro de Lisboa, Robert Lippok, Ronald Lippok e Stefan Schneider que constituem os To Rococo Rot, apresentaram-se num Indústria bem composto e visivelmente expectante em relação ao que iria acontecer. Apresentaram-se munidos de um Laptop, um teclado e mais uma série de "máquinas" que o comum fã musical não consegue identificar. Sabia-se que o tipo de música a ser apresentada não corresponderia propriamente àquilo que se pode ouvir nos albuns e o concerto foi simplesmente - nem mais nem menos - aquilo que eu estava à espera. Durante cerca de uma hora ouviram-se batidas, samples, drones e sons que, embora não convidassem muito para um abanar de anca contínuo e desprovido de vergonha, serviram de banda sonora para viagens espaciais e para tudo mais o que se quisesse. Teias de aranha electrónicas ou techno. Por momentos pensei mesmo estar no meu quarto a ouvir música, como num dia normal. Não deu para aquecer a noite nem para animar muito o público, mas também não era isso que se estava à espera.
Sons de concertos próximos

Mogwai - Rock Action
Mirah - Advisory Committee
Mogwai - Young Team
Alla Polacca or Stowaways - Why Not You?
Malcolm Middleton - 5:14 Fluoxytine Seagull Alcohol John Nicotine

© André Gomes

Há Dias

Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.

Eugénio de Andrade

sábado, janeiro 17, 2004

Sons de hoje

The Sunburned Hand Of The Man - Headdress
The Hunches - Yes. No. Shut It
Valete - Educação Visual
Jay-Z - The Black Album
Colleen - Everyone Alive Wants Answers
Radiohead - Kid A

© André Gomes

Duas mãos tocam-se. Tocam um passado. Tocam-se. Tocam-se como se fosse possivel olvidar a dor infligida por algo que nem sequer está ao alcance dos comuns mortais.Duas mãos inertes, doridas. Duas mãos que não concentram em si força suficiente para transformar, ainda que de forma leve, dois passados num só futuro. Duas mãos que não sentem os dedos, resignadas, submissas. Prostradas ao silêncio, caídas perante a dura inevitabilidade de já não mais se conhecerem, de não conhecerem o toque, a ligação. Lançadas por terra que são as ilusões, é tempo de consternação, recolhimento. Transformar memórias em pequenas sensações que se tornam cada vez mais imperceptíveis, diminutas, reduzidas a segundos.

sexta-feira, janeiro 16, 2004

2004 em 4 canções

Estas são, na minha opinião, as primeiras quatro músicas do ano cuja audição é obrigatória.

Xiu Xiu - I Luv The Valley Oh
Telefon Tel Aviv - I Lied
Air - I Run
Liars - Broken Witch
Sons de hoje

Bowery Electric - Lushlife
Telefon Tel Aviv - Map of What Is Effortless
Mirah - Advisory Committee
Explosions In The Sky - The Earth Is Not A Cold Dead Place
Matmos - Civil War
Mark Kozelek - What's Next To The Moon
Godspeed You Black Emperor! - F#A# Infinity

© André Gomes

Do sitio de onde me encontro não é possível absorver todo o amor e energia num segundo, numa fracção de tempo tão escassa que não sabe caber em si tamanha capacidade. Projectada à minha frente a infinita ilusão daquilo que fui. Uma presa fácil, um medo. Uma sensação concentrada de já não possuir a capacidade de só por mim, mudar seja o que for.

quinta-feira, janeiro 15, 2004



Treze - Inocência Perdida de Catherine Hardwicke

Tracy tem 13 anos. Tracy é uma boa aluna na escola, tem duas amigas com quem passa a maior parte do tempo e escreve até poesia. Um dia, depois de ser gozada na escola perante os seus amigos, Tracy decide mudar o seu estilo de vida. Manda para o lixo os peluches e as bonecas, a roupa que usava e compra novas roupas, muda de estilo e muda de amigas. Surge no seu caminho, Evie Zamora que era dada a um estilo de vida cheio de rapazes e sexo, drogas e alcool. Tracy e Evie passam a ser melhores amigas e passam os dias a tomar drogas, com rapazes, a roubar dinheiro e roupa e a fazer compras. O ambiente familiar na casa de Tracy não é o melhor. Desde que o seu pai se separou da sua mãe, Melanie, Tracy e o seu irmão tiveram de lidar com a ausência de uma figura paternal pela casa. Ainda por cima, o novo namorado da mãe de Tracy é um ex-toxicodependente que não promete muita estabilidade familiar. A falta de responsabilidade e a vida sem regras que Tracy leva começam a atingir proporções preocupantes e a sua mãe fica sem saber o que fazer. E os problemas ainda mal tinham começado.
Thirteen é um retrato real do que acontece muitas vezes a adolescentes numa idade em que a pressão para se ter estilo, ser-se sexy e estar-se na moda são grandes. É um drama real sobre as más influências, sobre os maus caminhos a seguir, sobre a amizade ou a falta dela. É um filme que demonstra como por vezes escolher o caminho mais apetecível se pode transformar na direcção errada.


A mailing lista da Acuarela anúncia a vinda de Matt Elliott ao nosso país para um concerto na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, no dia 10 de Fevereiro. O ex guitarrista dos Flying Saucer Attack, que chegou a gravar sob a denominação de Third Eye Foundation e que agora se apresenta a solo, em nome próprio, vem apresentar o disco "The Mess We Made"


Segundo o Intervenções Sonoras, a primeira parte dos concertos dos Mogwai em Portugal, no dia 5 e 6 de Fevereiro, no Paradise Garage em Lisboa e no Hard Club em Gaia, respectivamente estará assegurada por Malcolm Middleton. Malcolm Middleton faz parte da dupla que constitui os Arab Strap e lançou recentemente o album de estreia, 5: 14 Fluoxytine Seagull Alcohol John Nicotine (capa na imagem).
Sons de hoje

The Mars Volta - De-Loused in the Comatorium
Mondo Generator - A Drug Problem That Never Existed
Sonic Youth - Confusion Is Sex / Kill Yr. Idols
Bowery Electric - Lushlife
Dealema - Dealema
Sigur Rós - ()

© André Gomes

Deliberadamente, caminhei sobre as tuas palavras como se fossem terreno seguro, como se fossem o meu chão. Nunca antes alguma coisa me parecera tão certa, tão inofensiva. Dei como certa a inevitável ligação que existia entre nós, o carinho que nutriamos um pelo outro. Talvez existam mesmo luzes que se acendem apenas com o único propósito de serem apagadas, sopadras, esquecidas pouco tempo depois. Talvez haja entre nós uma decadência, uma dramatismo que me agrada, que me consola. Nem todos possuem este talento violento de dar e receber, de não rever. Ninguém segura entre mãos tamanha luz, como nós o fizemos. Ninguém conheceu a noite como nós ousamos conhecer. E acima de tudo, ninguém mais tem essa capacidade redentora de dizer tudo o que há para dizer no silêncio, na cobardia da ausência.
"O leitor é o tipo de melómano que adora o Bob Dylan pré-cristão mas pós-modernista, bate as discotecas à procura de velhos discos do Fernando Farinha, gosta dos Madness e vai à bola com as bandas sonoras de Francis Lai? Não? Foi o que pensamos, mas o problema é este: enquanto as fronteiras, que outrora dividiam os diversos compartimentos estilísticos da música popular, se desmoronam num "burro-em-pé" constante de fusões e misturas, os melómanos vêem-se cada vez mais aflitos para se definirem. Antigamente tudo era simples: gostava-se de Folk, ou de Fado, ou de Soul, ou de Pop. Hoje, já se ouvem auto-definições como esta: "Gosto de Pop de fusão Motown com batida industrial e violas semi-psicadélicas, irrompendo de ora em ora para um Reggae-de-raiz ligeiro, desde que haja uma utilização violenta de sintetizadores. Não pode ser."

Miguel Esteves Cardoso, in Escrítica Pop

quarta-feira, janeiro 14, 2004



O Pedro já o disse, mas nunca é exagero dizer que "Cold Cold Water" da Mirah é uma canção deveras admirável. Grandiosa, luxuosa, desesperada mas ao mesmo tempo contemplativa e de uma calma e de um sossego admiráveis. Mirah que vai estar em Portugal para dois concertos. O primeiro é já no dia de 19 de Janeiro e acontece no Auditório Velho do Orfeão de Leira. No dia seguinte, a autora de Advisory Committee actua no Mercedes, no Porto. Não imagino ainda em que moldes o concerto será apresentado, mas imagino que Mirah se faça acompanhar (apenas) de uma guitarra e da sua envolvente voz. Lá estarei para depois contar.
Sons de hoje

Telefon Tel Aviv - Map of What Is Effortless
Mirah - Advisory Committee
Ryan Adams - Love Is Hell, Pt. 1 EP
Mark Kozelek - Rock 'N' Roll Singer EP
Ryan Adams - Love is Hell, Pt. 2 EP
Xela - For Frosty Mornings And Summer Nights
Explosions In The Sky - How Strange, Innocence
The Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-la-la Band With Choir - This Is Our Punk-Rock, Thee Rusted Satellites Gather + Sing
Aurore Rien - Telesthia EP
Mark Kozelek - What's Next To The Moon
The Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-La-La Band - Born into Trouble as the Sparks Fly Upward

terça-feira, janeiro 13, 2004


© André Gomes

Mãos feridas na porta dum silêncio

Vida que às costas me levas
porque não dás um corpo às tuas trevas?

Porque não dás um som àquela voz
que quer rasgar o teu silêncio em nós?

Porque não dás à pálpebra que pede
aquele olhar que em ti se perde?

Porque não dás vestidos à nudez
que só tu vês?

Natália Correia


Os Xiu Xiu são Jamie Stewart, Sam Mickens, Jherek Bischoff, Cory McCulloch , Yvonne Chen e Lauren "Dr. Troll" Andrews e foram formados em San Jose. O nome da banda foi retirado de um filme que dizem ser o filme mais depressivo de sempre: "Xiu Xiu: The Sent-Down Girl", um filme Chinês que data de 1998. Na verdade, a música dos Xiu Xiu podia perfeitamente ser a banda sonora do filme de onde retira o seu nome.
O primeiro album surge em 2002, lançado pela 5 Rue Christine. O nome: Knife Play e é composto por 11 faixas e por uma instrumentalização invulgar: sintetizadores, guitarras distorcidas, bateria, teclas, e mesmo sinos e outros instrumentos metálicos não identificáveis fazem com que a música dos Xiu Xiu seja caótica, visceral, neurótica, dramática. A voz de Jamie Stewart, que muitas vezes faz lembrar a de Robert Smith dos Cure, é urgente, amedrontada, desesperada. Gritos histéricos cruzam-se com sussuros de uma paz aparente. As letras são igualmente de uma melancolia corajosa: "This is the worst vacation ever / I am going to cut open your forehead with a roofing shingle." Do album de estreia destacam-se os temas "Hives Hives" e "Dr. Troll".
Lançaram, depois, no mesmo ano, em 2002, um EP chamado "Chapel of the Chimes" que continha 5 faixas. Voltaram depois com o segundo album de originais em 2003. "A Promise" é o título.
Estão de volta em 2004 com o 3º album de originais de seu nome "Fabulous Muscles". Embora mais acessível, é um registo (ainda) arriscado, arrojado. "I Luv The Valley Oh" podia quase ser um single e tem um riff melodioso e viciante, capaz de fazer inveja aos U2. "Brian The Vampire" retoma o caos, o medo, a histeria. Promete ser um dos melhores albuns do ano.
O André diz que os Xiu Xiu são "urbano depressivos para o século XXI". Eu gosto de imagina-los como uma ida do Robert Smith à sucata local entre guinchos de carros de mão pouco oleados e latas de conserva vazias.

Sons de hoje

Damien Rice - O
Death Cab For Cutie - Transatlanticism
Willard Grant Conspiracy - Regard The End
Mirah - Advisory Committee
The Mars Volta - De-Loused in the Comatorium
Leila - Courtesy of Choice
Xela - For Frosty Mornings And Summer Nights
Mogwai - Rock Action
The Smiths - Strangeways, Here We Come

© André Gomes

Não há palavras

Tocas um corpo, sentes-Ihe o repetido tremor
sob os teus dedos, o cálido andamento do sangue.
Observas-Ihe o lânguido amolecimento,
as suas sombràs corporais, o seu desvelado esplendor.
Não há palavras. Tocas um corpo; um mundo
enche agora as tuas mãos empurra o seu destino.
Estira-se o tempo nos pulmões
silva como um chicote rente aos lábios.
As horas, o instante, detêm-se,
extrais aí a tua pequena parcela de eternidade.
Antes foram os nomes e as datas.
a história tão clara e lúcida de dois rostos distantes.
Depois aquilo a que chamas amor,
talvez se transforme em promessa arrancada,
muro erguido que pretende encerrar
aquilo que só em liberdade pode ganhar-se.
Não importa, agora nada importa.
Tocas um corpo, nele te fundes,
apalpas a vida, real, comum. Já não estás só.

Juan Luis Panero

segunda-feira, janeiro 12, 2004



Monstros e Companhia de Peter Docter (Pixar)

Sulley e Mike trabalham em equipa na Monstros e Companhia, a maior fabrica de sustos de Monstropolis. Sulley, com a ajuda de Mike, entra durante a madrugada nos quartos das crianças de todo o mundo para as assustar conseguindo assim obter energia para o seu mundo, dos gritos resultantes dos sustos. Um dia, Boo, uma das crianças assustadas pela companhia, segue Sulley até ao mundo dos monstros e, como as crianças eram vistas como uma fonte tóxica e como um problema, o pânico instala-se na fábrica. Começam, então, a surgir peripécias divertidas naquilo que é a tentativa, por parte de Sulley e Mike, de fazer com que Boo volte ao seu mundo normal e eles mesmos deixem de ter as suas carreiras e vidas em jogo. Mais um divertido filme de animação da mesma equipa de "Toy Story" e "Toy Story 2" e de "A Bug's Life".

Top Filmes 2003

1º “Mystic River” de Clint Eastwood
2º “A Última Hora” de Spike Lee
3º “Dogville” de Lars von Trier
4º “Elephant” de Gus Van Sant
5º “Kill Bill: A Vingança” de Quentin Tarantino
6º “Embriagado de Amor” de Paul Thomas Anderson
7º “Ken Park - Quem és Tu?” de Larry Clark
8º “Adeus Lenine!” de Wolfgang Becker
9º “Sonhos Desfeitos” de Brad Silberling
10º “As Horas” de Stephen Daldry


O Senhor dos Anéis - O Regresso do Rei de Peter Jackson

No terceiro filme da trilogia do Senhor dos Anéis, Frodo e o seu fiel companheiro, Sam, continuam, na companhia de Gollum, na tentativa de salvar a Terra Média das forças do Mal, das forças de Saruman. Ao mesmo tempo começava-se a traçar o destino de Aragorn no trono de Gondor e o seu romance com Arwen, a marcha do exército de Sauron, e outras frentes de acção que fazem com que por vezes nos esqueçamos em que ponto vai a história. Os cenários deslumbrantes continuam, e neste terceiro filme, é possível desvendar alguns segredos e ver indistintamente o destino reservado a cada personagem.
Sons de um dia de discos de 2004

Telefon Tel Aviv - Map of What Is Effortless
Electrelane - Power Out
Jason Molina - Pyramid Electric Co
Einstürzende Neubauten - Perpetuum Mobile
Xiu Xiu - Fabulous Muscles
Air - Talkie Walkie
Liars - They Were Wrong So We Drowned

domingo, janeiro 11, 2004

Sons de hoje

Explosions In The Sky - The Earth Is Not A Cold Dead Place
Xiu Xiu - Fabulous Muscles
Nirvana - Bleach
Mirah - Advisory Committee
Mogwai - Rock Action
Bedhead - What Fun Life Was

© André Gomes

Chegaste à idade da morte

Chegaste à idade da morte
dos teus amigos também agora
começas a distingui-los
cai um e depois outro
e tu apressas o passo
desta vez vais discutir
o terreno palmo a palmo
não saberias o que fazer
se a solidão se despovoasse.

Carlos Alberto Machado
Top Albuns 2003


1º Rosie Thomas - Only With Laughter Can You Win


2º Explosions in the Sky - The Earth is Not a Cold Dead Place


3º Rufus Wainwright - Want One


4º Lisa Germano - Lullaby for Liquid Pig


5º Radiohead - Hail to the Thief


6º OutKast - Speakerboxxx / The Love Below


7º Maximilian Hecker – Rose


8º Four Tet – Rounds


9º Mojave 3 - Spoon and Rafter


10º Sun Kil Moon - Ghosts of the Great Highway

11º Josh Rouse - 1972
12º Yeah Yeah Yeahs - Fever to Tell
13º Ulrich Schnauss - A Strangely Isolated Place
14º Damien Rice - O
15º Belle & Sebastian - Dear Catastrophe Waitress
16º Smog - Supper
17º Calexico - A Feast of Wire
18º From Monument To Masses - The Impossible Leap In One Hundred Simple Steps
19º The Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-la-la Band With Choir - This Is Our Punk-Rock, Thee Rusted Satellites Gather + Sing
20º Goldfrapp - Black Cherry
21º Mogwai - Happy Songs for Happy People
22º Blur - Think Tank
23º Damien Jurado - Where Shall You Take Me?
24º Bonnie ‘Prince’ Billy - Master and Everyone
25º Ryan Adams - Rock n' Roll
26º Deerhoof - Apple O'
27º Songs: Ohia - Magnolia Electric Co.
28º Dirty Three - She Has No Strings Apollo
29º Arab Strap - Monday at The Hug and Pint
30º Xela - For Frosty Mornings And Summer Nights